Thursday, June 11, 2009

Full Circle Farm



No avião, voltando a Seattle, resolvi me associar a um programa de agricultura orgânica comunitária. Trata-se uma espécie de feira orgânica mais ou menos à domicílio com produtos de uma ou mais fazendas locais.

Eu vinha namorando essa idéia há tempo, mas acabava protelando, ficando com preguiça, essas coisas... e mais uma vez, quase ia me esquecendo até chegar no caixa do supermercado do bairro onde paguei quase $80 por um pouquinho de alface, rúcula esquálida, frutinhas ordinárias como banana do Equador, uns tomates meio pálidos.

Então me inscrevi no programa: por $27 semanais recebo, ou melhor busco numa casa aqui pertinho, uma caixa "pequena" de produtos da estação cultivados em lugares próximos a Seattle. Um email no ínicio da semana me avisava do conteúdo da caixa e me dava a oportunidade de trocar alguns produtos... troquei maçãs por laranjas, e ruibarbo por brócolis. Hoje fui buscar minha primeira caixinha. Estava tão animada, que mal podia esperar chegar a hora marcada. Até limpei a cozinha, a pia e o balcão!

Abri a caixa - muito maior do que eu esperava - como um presente de aniversário. A medida que ia tirando as frutas e verduras lá de dentro da caixa super resistente (que deve ser dobrada e devolvida - já que será a "minha" caixa nos
próximos meses) ia planejado/sonhando e me deliciando com o cardápio da semana:

1. um caldo de legumes feito com as cascas, folhas e caules. Um caldo a ser usado em sopinhas, no arroz integral, num brodo ou risoto numa noite mais fresquinha;

2. em homenagem à minha mãe original e à Catharina, aspargos e ovos cozidos com molho de ghee e ervas;

3. uma ou duas saladas de folhas sortidas e muito jovens pra acompanhar uma picanha ou um peixe grelhado;

4. uma salada de brocolis ao ponto com amendoas tostadas; o que sobrar vira uma sopinha creme com cheddar - é verão aqui pero non troppo...

5. uma massa fresca ao creme de espinafre e muito parmesão;

6. torteletas 'tatin' de pêssegos para levar como sobremesa em jantares na casa de amigos e nas reuniões marcadas para os próximos dias. Uma delícia com sorvete de creme (que alguém outro há de providenciar :-) )

7. um arroz com feijão como base para um tipo de couve de cabo vermelho com bacon... esse prato há de ser compartilhado com minha amiga Ana Paula e familia.

8. o resto, basicamente as frutas e as cenouras, ficarão para lanchinhos ou café da manhã... substituindo o meu tradicional bolo e amendoinzinhos da tarde.

E pronto! Cardápio feito, caldo de legumes no fogo, aspargos preparados, folhas e frutas lavadas ... estou pronta para comer bem durante a semana.

Agora posso colocar todas as energias traduzindo o próximo programa de viagens...
desta vez com o Projeto Bagagem, 18 dias no nordeste e na Amazônia em janeiro de 2010.

Sunday, April 12, 2009

Corvo de prata



Stanley Cook, Crow in Tree 12"H x 16"W Crow, and proud of it.




Nem sempre os corvos negros são sinais de azar ou problemas. Muito pelo contrário!


Receita : Corvo de prata

Ingredientes:

• um punhado de corvos barulhentos espalhados pelas árvores
• um predador de ovos de corvos (gaivota ou coruja)
• uma manhã chuvosa
• uma ou duas pessoas à mesa do café da manhã
• um punhado de lembranças aleatórias de experiências pregressas em alquimia e xamanismo
• um livro sobre animais totemicos
• uma pitadinha de medo do desconhecido
• duas pitadinhas de curiosidade domingueira

Modo de preparo:

Fechar os olhos e prestar atenção ao barulho histérico dos corvos defendendo o ninho. Adicionar a pitada de medo muito antigo. Mexer bem e adicionar, aos poucos, o som da chuva nas folhas da árvore mais próxima.

Cozinhar por uns cinco minutos, tomando cuidado para não ferver.

Tirar do saco de lembranças um punhado de curiosidade domingueira. Salpicar no caldo barulhento a vontade de conhecer a língua dos corvos, para entendê-los melhor.

Abra o livro dos animais totemicos enquanto espera o guisado começar a perfumar o ambiente.

E, voilá! Saboreie o corvo de prata, suas estórias e poderes:

http://peacefulrivers.homestead.com/animalcard24.html

Páscoa em Seattle


Acordei nesse domingo de Páscoa pensando em Mauá e em Salvador. Quase, mas quase, acordei triste. Assim... abri os olhos meio triste... pus os pés no chão, ainda um pouco saudosa... ouvi lá fora as gotas da chuva que nunca pára nessa terra.

Na cozinha, fiz café sentindo o cheirinho da cozinha de Mauá. Feijão de ontem no fogão a lenha, restinho azedo nos copos de vinho. Silêncio... só pincelado pelos passarinhos, gaivotas e corvos. Gabi e o gatinho ainda dormindo. Silêncio pincelado pelas lembranças das vozes e risos na mesa do café em Mauá. Estórias de sonhos, amores e desamores, planos.

Caneca de café na mão fui até a varanda molhada e já bem mofada. Um pouco triste e saudosa ainda. Aí vi as magnólias vermelhas começando a abrir no fundo cinza. Aí lembrei que há um bom tempo entro nos dias resoluta a não ter um ‘bad day’. (mais sobre esse assunto, outra hora)

Olhei pras magnólias, pras gotas de chuva encharcando o buddha, senti o calorzinho gostoso das lembranças. Meio como percebendo que as flores lindas desta manhã estão carregando a alma das flores do ano passado.

Que coisa boa poder carregar dentro de mim tanto mauá, bahia, são paulo, gente linda, sons tropicais, amores, amigos, cheiros.

Gabi acordou e me deu um abraço tão, mas tão, gostoso que me senti como um ovo de páscoa daqueles cheio de surpresas boas dentro ... Acordei podendo ficar triste e acabei ficando um ovo de páscoa.

Thursday, March 12, 2009

Reflexões Melaninas

Ou diria melhor, reflexões atacadas cancerianas... pra quem sabe um pouco de astrologia...

Hoje é sábado. Minha mesa está coberta de papéis e documentos. O dia que resolvi fazer meu imposto de renda. Não deve ser muito complicado, pois não tenho muita renda. Mas é a primeira vez que faço meu IR sozinha... sem marido, sem Yázigi, sem contador, e sem renda...

Olho a papelada toda e resolvo escrever reflexões nada a ver... existem muitos nomes pra esse estado de negação ... e todo mundo que é gente, conhece.

Acordei faz pouco tempo. Primeira vez, em anos, que acordo depois das 9 da manhã.

(Reflexões cancerianas = seria melhor ter acordado com um pé amigo quentinho...)

Acordo com o pé fedido do gato da Gabi no meu nariz e, ao mesmo tempo, aliviada em perceber que Gabi voltou pra casa sã e salva as cinco da manhã.

(Mamãe sempre me disse que preocupações maternas são pra sempre. Será que a gente deixa de ser mãe algum dia?

Tive um ataque no templo onde eu estudo budismo a sério. O mestre nos pediu para ver e cuidar de todos os seres como se todos fossemos a mãe universal. Achei e acho esse exercício um pé! Ou ele não tem filhos ou eu ainda tenho muito chão/vidas a percorrer. Ser mãe é um saco!!)

Na verdade, acordei as duas e meia da manhã pra levar meu amigo Bruce pro aeroporto. Ele e eu temos um tipo de amizade rara que inclui traslados pro aeroporto. Quando vou pro Brasil e preciso sair as cinco da manhã, aqui está ele as três pra me levar. Desta vez ele comprou o carro dos sonhos em São Franciso e me senti na obrigação de retribuir esses favores esquisitos.


***
No café da manhã, que normalmente seria um almoço, vejo uma manga mexicana na cesta amazonica sobre mesa da cozinha do Ikea. É amarelinha, e não tem sabor nem cheiro... Uma manga que poderia ter sido ser mas jamais será. Um fruto colhido antes da hora.

Jogar no lixo? Re-inventar isso que poderia ter sido numa compota, num bolo?

(Reflexões cancerianas = e os nossos filhos que vão embora antes da hora? Lançados no mundo como sementes sem rumo, sem prumo... ao deus dará...

diferentemente da manga, com sorte um dia amadurecem , ficam saborosos...

Penso nos rebentos dessa cultura americana que, com a maravilhosa e triste certeza juvenil, se acham os donos do mundo e agem como se assim fossem,

nos sem terra,

nos destituidos,

nos bilhões de pequenos espalhados pelo mundo que, por uma razão ou outra, precisam cuidar dos menores ainda...

em todos aqueles que, mesmo antes de virar planta, precisam ser troncos e raizes...

mangas/tomates/goiabas tirados do pé antes da hora)

O imposto de renda me chama...

É sábado ... chove como sempre... gatinho ronronando pedindo comida...

(Reflexões finais e cancerianas = quero minha mesa numa varanda ensolarada, cheia de comida, risos, lágrimas, estórias, amores e dasamores, sonhos ... olhando, escutando, bebendo água fresca, cortando cebola e alho e tomate e manjericão... Afinal, nasci mesmo pra ser mãe...)